Tempos impróprios

Por: Carla Saudades

Primavera negra

Primavera negra

Carla Saudades ,

Mestre em história da arte, ECA/ USP e doutoranda em Ciências da Religião, PUC/ SP

 

As florestas imaginárias de Lloret trazem como conceito, nuances de uma paisagem em trânsito. Nela, uma pulsão orgânica, convida o expectador a perscrutar, outras versões da natureza em perpétua evolução, se desconstruindo a todo instante, a partir de seus dramas inacabados de um tempo movente que acompanham a existência humana.

Os “corpos-orgânicos” do artista, transitam nas intermitências da própria representação. Suas “florestas-pensamentos” vem para a obra como metáfora, com o intuito de evocá-la, de desvelá-la , ao trazer ao aberto, a imagem “ não-vista”, o incorpóreo da própria natureza. Seus óleos, suas aquarelas e desenhos procuram delinear um espaço- íntimo, uma ontologia imagética, onde o tecido pictórico, vem como artifício, dialogando com as novas mídias, tais como a fotografia, a arte digital, o cinema. Martin Heidegger, falando sobre arte, nos mostra como a saída da luz, na própria imagem “com-porta”, joga para fora de si, aquilo que está descoberto no âmbito do ocultar-se.

Na exposição ”Primavera negra”, encontramos elementos que contracenam com as figurações da transvanguarda dos anos 80. Uma cisão originária, como premissa de um corpo-imagem, delinea -se nos contornos de um tempo impuro, como resistência. Nesta série, seus desenhos, de grandes formatos, buscam um diálogo com o outro, próximo ou distante. Sempre em movimento, eles se disseminam nas obsessões, nas fendas dos silêncios, suportando nossos paradoxos. Algo nesta mostra, nos seduz a dialogar com o conceito de estrangeiro, nômade, em seus infindáveis atravessamentos. Como expectadores somos convidados a perscrutar as fronteiras brancas de Lloret, pernoitando em seus traços inacabados, nas redes indeléveis do instante, onde uma migração virtual se presentifica, se estende além da sua obra, dialogando com a realidade, neste outono de 2013, efervescente, tribal que enaltece uma brasilidade em trânsito, com sede de transformações . É uma dialética do agora, clamando novos tempos de democracia, exercício de cidadania e formas de religiosidade. Como nos escreve Georges Didi-Huberman,” a imagem-aura”, se avizinha nos desconhecidos deslocamentos em na busca de outros modos de compreensão, apontando para novas ações e câmbios que se instauram nas descontinuidades dos tempos heterogêneos, acolhedores das “supervivências , sintomas e latências, no resgate de uma ancestralidade.

A poética de Lloret, desde Cuba tece os contornos de um “ espaço – tempo ontológico”. Somos convocados por esta condição da existência que permea a intimidade das coisas, da matéria, abarcando consigo, outras montagens de tempos anacrônicos, presentes no binômio “ imagem e história ”, que desponta na emergência de movimentos próprios, chegando a nós como rastros, vestígios de um passado não tão distante e de um devir, não tão próximo.

Nos “ tempos-impróprios “ de Lloret, nos deparamos com um apelo à experiência da” verdade da obra” que constantemente, se mostra e se esconde, em um jogo sedutor da própria percepção. Temos a impressão que sua pintura carrega rastros de algum drama simbólico”, que se incorpora à nossa consciência, portando elementos anteriores da própria cultura. Como escreve Mikel Dufrenne, as condições, “ espaços – temporais da nossa sensibilidade, estanciam esses apriori culturais , fazendo com que não possamos tocar nesta

corporalidade imagética, mas apreendê-la, pela experiência do pensamento. Aquilo que se constitui como unidade, originalidade, desvela-se em movimentos intermitentes, propiciando àquele que vê, sentimentos que evocam algo de si mesmo, que desenha nossa humanidade. É uma pulsão arcaica, uma intimidade que abarca, nossas percepções e aprendizagens fazendo com que possamos comungar com um pathos imemorial, um saber virtual, presente do berço das civilizações.

Lloret , como a arte, dialoga com o inaudito, o irrepresentável, o não-lugar entre o expectador e a obra, apreendido nas florestas de formas , da sensibilidade e das pulsões subjetivas que nos induzem a pernoitar o caminho irresistível dos saberes implícitos. Pinturas, desenhos, fotografias, gravuras, mídias digitais, compõem como nos fala Anne Cauquelin, “ paisagens mestiças, híbridas”, convidando o expectador a se sentir imerso na natureza, a percorrer a gênese de uma figuração inconclusa.

 

Carla Saudades,

Mestre em história da arte, ECA/ USP e doutoranda em Ciências da Religião, PUC/ SP