Pátria mátria, salve salve-me!

Por: Sonia Salcedo del Castillo

Ode ao outro oleo sobre tela 120x250cm 2014

Ode ao outro oleo sobre tela 120x250cm 2014

Sonia Salcedo del Castillo

abril, 2013

 

A poética de Alejandro Lloret, artista cubano brasileiro, tem como leitmotif a construção de uma identidade pessoal, por meio do entendimento da ideia de espaço, seja material ou mental. De paisagens hiper-realistas a abstrações informais, sua obra transgride limites de verossimilhança e, evocando formas orgânicas, toca outra questão que lhe é fundamental na lida com a expatriação: o tempo.

Oriundo da geração artística cubana dos anos 80 que transformou o panorama das artes visuais em Cuba, Alejandro investe em relações espaço temporais imaginárias (exuberantes, aliás). Sobre a recorrência desse fazer, gosto do entendimento de serem aquelas espacilidades “naturezas pensantes”, independentemente de elas existirem, nos habitarem ou de nós a habitarmos. Também aprecio a crença desconfiada de Lloret acerca da experiência do belo em sua poética, como sendo esse um portal para a transcendência legado do cotidiano, qual “rasgo do mundo” (ou fruto da imaginação?). Sobretudo porque aquelas tais naturezas desvelam um desarraigamento não correspondente à perda do contato com o real. Ao contrário, à maneira de um abrigo feito de inteligência e beleza sobre uma espécie de ‘limbo cardenal’,[1] resultam em conscientização sobre os mistérios da vida que a realidade mundana esconde.

O peculiar da obra de Alejandro diz respeito a seu processo de construção. Sua fatura revela-se como composição, cuja elaboração faz dialogarem a materialidade do real e a impalpabilidade do imaginário. Literais ou não, suas obras miscigenam um bancos de imagens referentes (de livros de botânica e atlas, entre outros elementos) e memórias, à maneira de colagens, apropriações ou montagens.[2] O espaço-tempo de suas florestas, por exemplo, e o de suas abstrações se definem, portanto, da mesma forma. Sim, principalmente se considerarmos a materialidade da obra, acrescida do modo como o artista se relaciona com o mundo, uma saída metafísica capaz de misturar o universo das ideias e o das formas.

Inventar paisagens, dar roupa à natureza, construir horizontes, juntar lembranças resultam em devires, assim: a partir da inaparência das coisas, cada lugar, cada objeto, cada ser compõem uma totalidade espaçotemporal (“lugar de todos os lugares”) que se apresenta como possibilidade filosófica de entendimento do existir. O fazer poético na captura do tempo é dado importante da obra do artista.

Em si, o tempo não é divisível. Presentifica-se em tudo, quer seja lugar, coisa ou ação. Apenas a criação artística é, portanto, capaz de extrair um momento singular do mundo. Como algo que acolhe e ultrapassa, “um alguém” que surge, estética e ambiguamente, entre o sensível e o inteligível, impedindo o testemunho solitário do ser no mundo – mundo, aqui bem entendido, que completa e transcende, nos abriga e habita, nesse “de-morar-se” dos mortais sobre a terra.[3]

Coisas e lugares são indistintamente espaço, assim como arrependimentos e veladuras desnudam memórias ou histórias… Antes de ser mera poética, a arte de Alejandro é meio de conhecimento, criado a partir de elementos (animados ou não) que se nos apresentam telúricos, aquosos, etéreos, acrescidos de texturas ou matizes, lembrando aromas, sabores ou sons, como verão nostálgico, flamular insulano, grave sombra lazuli sobre agrimemória carmim, surdo alvo desterro, melancólico outono-inferno… Oh! Primavera Negra,[4] outrora agudo fel, hoje gentil porvir verde-amarelo, luz!

De frações, frestas, lapsos, escrituras, lugares, instantes, olhares, a obra de Alejandro é pátria poesia pictórica: primeiro escuro, depois meio-tom, por fim claro fluir sem corpo ou fronteira. Ou, quando linear, é sinfonia mátria feita espiral áurea[5] ou historiograma de vida.

O espaço construído pelas cerdas de seus pincéis, pictórica ou linearmente, remete-nos a um fluir no tempo, qual ritmo.[6] Transcendente, confronta inteligir e sentir, sendo, pois, composição de batimento, pausa, intensidade, vibração, harmonia entre partes sensíveis: em modulação de cores e formas, frações e totalidades.

Diante do paradoxo da completude, Alejandro parece propor uma metáfora do espaço de existência à maneira de espacialização da experiência musical, como explicitando a dinâmica de uma onda sonora,[7] mediante volume, frequência e tempo. “Ouvir as cores e ver os sons” é, pois, dádiva da natureza sensível ao homem, relacionada a questões filosóficas que inspiram e impulsionam a criação artística.[8]

Eis o conceito de transcendência implícito, aqui. Como na mística apofática que nutre a busca de entendimento sobre o ser no mundo, a obra de Alejandro Lloret almeja, segundo ele mesmo, “ir além da linguagem, realizar nas fendas do mistério, do inaudito, do incompreensível, do inconcebível, ou seja, ir além da imagem, da presença, no binômio luz sem luz…”.

[1] Aludindo ao lugar provisório destinado aos justos do Antigo Testamento, cria-se aqui uma analogia com a situação geográfica de Lloret no mundo.

[2] Por exemplo, as palmeiras de seus quadros são mixagens das palmeiras imperial brasileira e real de Cuba, em que uma engole a outra. Trata-se, note-se, de ícones importantes de dois países distantes.

[3] Heidgger, Martin. “Construir, habitar, pensar! In: Ensaios e conferências. Trad. Emmanuel Carneiro Leão, Gilvan Forgel, Marcia Sá Cavalcanti Schuback. Petrópolis: Vozes, 2001, p 128-129.

[4] Fato político ocorrido em Cuba há uma década.

[5] Crescimento cumulativo em que antiga forma está contida na nova − fenômeno chamado de expansão gnomônica.

[6] Segundo Lorenzo Mammi, ritmo é palavra grega que deriva de reo, “fluir”. Em seu primeiro e mais amplo significado, o ritmo é portanto a maneira com que um evento flui no tempo. Não há nesse termo nenhuma referência necessária a regularidades periódicas ou a relações matemáticas entre intervalos. (Deus Cantor. In Artepensamento. São Paulo: Companhia das Letras, 199, p. 46).

[7] O som – que também é compeendido entre os fenômenons espaciais, é o produto de uma sequência rapidíssima (e geralmente imperceptível) de impulsões e repousos (que se representam pela ascensão da onda) e de quedas cíclicas desses impulsos, seguidas de sua reiteração. A onda sonora contém sempre a partida e a contrapartida do movimento que passa através da matéria, modificando-a e inscrevendo nela, de forma fugaz, o seu desenho. (Wisnik, José Miguel. O som e o sentido. São Paulo: Companhia das Letras, 1993, p. 15).

[8] E assim a obra de Alejandro Lloret remete-nos ao triunfo da divina ciência da pintura sobre suas irmãs, a música e a poesia, conforme Leonardo da Vinci: a pintura é pintura muda; a poesia, pintura cega.

Versão em Ingles: Mother Land save me, save me!