O Chomer da Forma

Por: Luiz Felipe Pondé

Para muitos de nós viver, é uma prisão. O prisioneiro pode ficar na cela por algum tempo ou pela eternidade. O modo como se dá às vidas dos seres humanos, suas dores e suas fraquezas, podem nos fazer pensar numa pena perpétua.

A experiência do prisioneiro é o esgotamento das possibilidades éticas, estéticas e fisiológicas. Quase lhe falta ar. Mas em alguns casos, a condição de prisioneiro pode se transformar na condição do guardião do lugar: uma outra qualidade ontológica ai se revela. Aquilo que antes era uma cela, agora passa a ser um universo criado como por um Deus com quem falamos. O espaço asfixiante se transforma num mundo infinito a ser representado por nossa voz e nossas mãos, nascendo ai as condições de possibilidade de contemplação da beleza e a libertação da forma antes presa na cela. Penso que a obra de Alejandro Lloret é um caso dessa transformação da cela no infinito da forma da beleza. O mundo, antes feio e tímido, revela-se múltiplo em sua diversidade de formas naturais. O meio ambiente atinge o estatuto de arte. Meus pulmões se enchem de ar diante da tela.

Neste sentido, duas características marcam a obra de Alejandro Lloret. A primeira é que sua obra é a de um guardião da beleza da natureza. “Chomer” (Guardião em hebraico) é a função que dá Deus para Adão e Eva enquanto habitantes do paraíso. Alejandro Lloret refaz a beleza do mundo cada vez que repete o hábito ancestral de representar esse mundo. Saídos do pecado, nesta obra podemos contemplar algo da graça que dá forma ao mundo.

Outra característica é ser guardião de uma ancestralidade.

Muitos filósofos e escritores já refletiram sobre a ancestralidade como a marca humana mais essencial: reconhecer a ancestralidade é reconhecer nossa alma depositada na experiência pensada, escrita e estética ao longo dos milênios de humanidade no planeta. A ancestralidade é um hábito. O hábito, ao lado da razão e das paixões, determinam aquilo que de humano há em nós. Sempre tivemos o hábito de representar pictoricamente o mundo. Fazer isso é um modo de arrancar significado das pedras e das paisagens que nos rodeiam e que se constituem em nossa primeira casa. Representar é guardar a forma e por isso é criar significado no mundo. Ancestralmente o homem é o guardião da forma do mundo. Criador e criatura se encontram no atelier.

 

Luiz Felipe Pondé,

( Filósofo, professor da Puc-SP ,ensaísta, assina coluna semanal na Folha Ilustrada do Jornal A Folha de São Paulo).

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