Conversa entre Alejandro Lloret e Carla Saudades

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1.Carla Saudades: Qual é o sentido para você  de ” pintar a natureza”?

Alejandro Lloret: A demanda que sinto ao pintar a natureza está relacionada com “uma experiência sujeitual”. Ela se dirige para diversas ordens, não se restringe apenas ao olhar.

 

2.CS: Você poderia explicar para nós como se articula o ” sujeito enquanto aquele que constrói” estas paisagens?

AL: Quando penso no sujeito ( no caso eu quando estou pintando), não o descrevo como alguém oposto a natureza ou a realidade que em algum momento decide captá-la ou documentá-la numa  porção de lugares ou endereços. A execução de uma paisagem e a sua mostração final, não se restringe a cópia de um lugar que inclusive poderia ser visitado pelo expectador. Teve momentos na história da arte, tanto para a pintura quanto para a fotografia que para se legitimar enquanto arte, os artistas foram atrás da cópia, através da pintura e os fotógrafos, da captação fotográfica.

 

3.CS: Você poderia esclarecer para nós qual é o roteiro das suas estratégias na hora de construir ou montar suas florestas?

AL: Estas obras não tem como ponto de partida, um click que se faz em frente a um lugar da natureza. Não se trata de um determinado lugar.

Me explico: posso até buscar referências em algumas documentações que eu fiz de diversas regiões do Brasil ou em outros países, mas a imagem final do quadro nunca vai estar endereçadas a uma delas. Para construir as minhas paisagens, me aproprio de livros de botânica, de livros de paisagistas, gosto muito dos jardins de Burle Marx, juntamente com outros autores, fotógrafos e artistas, entre tantas outras fontes de inspiração, como por exemplo, correr no Parque Ibirapuera e ficar enamorado de uma palmeira que ainda não tinha percebido.

Na hora de pintar, conto  tanto com as minhas lembranças das florestas tropicais do Brasil ou de qualquer outro lugar que conheço, como as soluções pictóricas no memorial da história da arte e não posso esquecer das performances diárias da própria natureza que estão sempre me surpreendendo a cada nova estação. Existe um mistério, uma sedução por trás da luz.

Assim como qualquer experiência distante ou próxima do ato de pintar que remetem a minha pessoa ou alguém conhecido, logo é um acúmulo de imagens, de idéias, de experiências e de idéias, na ordem da vida, da arte e da filosofia, que vem como restos, ruínas  para construir a obra. A idéia da montagem ( estratégias nas artes visuais e no teatro no começo do século XX), embora velada na aparência dos meus quadros, é um recurso da ordem da experiência ao longo da construção da obra. Pode ser que na metade do caminho, eu precise renunciar algumas soluções do quadro por causa de uma exigência, apelo ou impacto sensível que a realidade ou o quadro  me impõe. A todo momento preciso remontar, desconstruir e construir outras formas visuais acima do que estava sendo feito.

 

4.CS : É pertinente a idéia da antropofagia para a construção  das suas florestas?

AL: Efetivamente. Para falar de uma maneira mais ilustrativa, por exemplo, a fatura de uma árvore, pode começar de uma forma mais fiel à realidade e terminar engolindo a aparência de outra. Por exemplo, as palmeiras dos meus quadros são uma mixagem da palmeira imperial brasileira e a palmeira real de Cuba, onde uma é engolida pela outra. Veja bem, são ícones importantes de dois países distantes.

 

5.CS: Já que você falou no apelo da memória pessoal e também cultural, a questão temporal  é muito importante neste seu ” fazer pictórico”?

AL: O ato de pintar, se dá como uma experiência no  tempo.

Além de não poder determinar o momento em que uma obra nasce ( e nesta questão estou sendo completamente literal), já que posso começar um quadro neste instante e o acúmulo das lembranças  que motivam o meu trabalho, podem ter a sua origem em uma experiência sensível que me impactou a semana anterior, cinco ou 10 anos antes por exemplo, logo existe uma indeterminação temporal, ou seja, várias temporalidades em jogo, afetando o lado sensível e as decisões a serem tomadas, no  “do campo imagético ” da obra.

De qualquer maneira, eu não consigo determinar a forma em que uma obra ou uma imagem será devorada por  outra obra futura, nem como  ” obras minhas anteriores”, são engolidas pelo trabalho presente. Como se pode perceber, uma experiência antropofágica opera continuamente no nascimento de novas imagens.

 

6.CS: Esta abordagem da antropofagia está relacionada com o seu trabalho. E no caso do expectador, o que você poderia dizer?

AL:  Posso contar a seguinte estória que aconteceu comigo e a meu ver responde esta pergunta:

Ao fazer uma exposição individual em Santo Domingo, em uma galeria, com esta série de paisagens, vários expectadores no vernissage, reivindicavam a semelhança das minhas obras com as florestas da República Dominicana. Inclusive apontavam os lugares dois quais supostamente eu tinha me apropriado. Infelizmente ou não, além de ser a primeira vez que visitava aquele país,  nunca tive interesse em pesquisar aquela região. Parece que através da arte, o ser humano experimenta uma estranha necessidade de se nutrir, de se alimentar, no sentido de tomar para si, algo que lhe é estranho. Afinal, esta experiência não poderia se considerar antropofágica?

 

7.CS: Você poderia falar um pouco mais sobre a questão temporal em sua obra?

AL: A nossa existência como sujeito está tão atrelada ao tempo que gosto de afirmar que o ” nosso ser  dá-se como tempo”, como nos diz  Martin Heidegger, grande filósofo do século XX. Ou seja, aquilo que temos de mais próprio, original que se constitui um solo para a nossa existência, é a nossa finitude, ou seja, o tempo que temos para viver.

Olhando para esta questão de uma forma mais radical, eu gosto de afirmar que “ esta trama constitui um tecido das experiências sujeituais no tempo”.

Tudo o que se faz, as decisões, as estratégicas pictóricas, as justaposições das formas naturais que originariamente podem estar inseridas em geografias distantes, em um quadro podem aparecer como próximas. Na paisagem apresentada, tudo isto se movimenta no território das possibilidades de experiência.

Aqui não me interessa a linearidade do tempo mas  a sua totalidade. Desta forma, experimentamos uma  realidade policrônica , ou seja, ela acontece a partir de uma experiência visual que abarca diferentes temporalidades. Gosto de aproximar ” esta condição autoral que  me define como sujeito, da fatura intermitente do tempo”. A nossa percepção da realidade, do mundo, da obra, está constantemente em transformação, olhamos e somos vistos pela obra e pela existência , a todo momento.

 

8.CS: Luiz Felipe Pondé  o define como o ” guardião da forma”. Como a questão do espaço é delineada nestas paisagens?

AL: As decisões que ordenam o “campo da obra”, propiciam a estrutura para a montagem dos espaços e suas formas diversas que se configuram na imagem.
Na verdade, o ato de pintar se aproxima do de guardar, “as  lembranças das formas” , na fatura de uma nova imagem. É como se fosse possível trazermos à tona algo velado que carrega no exercício constante da aparência, ” a totalidade de todos os lugares”, ou seja, é como se cada paisagem, ao contrário de documentar, representar um lugar específico, fosse a totalidade de todos os lugares, como uma espécie de potência, ” um espaço -de- tempo”, construído, reinventado  que emergiu da inaparência, para se apresentar enquanto possibilidade, como se tivéssemos condições de estender,  trazer ao aberto, ” uma floresta-pensante”.

A minha função, se existir alguma, seria de ” guardar esta natureza concebida, construída ”  e oferecê-la ao expectador. Talvez ele também possa ter esta percepção simbólica de uma totalidade.

 

9.CS: Para finalizar a nossa conversa, você poderia nos falar um pouco sobre a mata atlântica brasileira  na sua obra?

AL: A floresta atlântica no Brasil é algo que me acolhe e me ultrapassa.

É mais próxima “ de um alguém “ que me visita na experiência sensível e no pensamento, impedindo que eu me torne um testemunho solitário, diante do mundo natural.

Quando observo esta materialidade orgânica, esta natureza grandiosa que me acolhe, ela se  torna uma experiência cultural, se constituindo uma voz que me ensina, me instrui, sobre a partilha, sobre a compreensão, a responsabilidade com o meio ambiente que me completa e me  transcende.