A força da natureza e seus limites

Por: Carla Saudades


Alejandro Lloret é um artista cubano, radicado em São Paulo há 21 anos. Tem 57 anos e vem desenvolvendo a sua obra no campo pictórico há 40 anos. Assumiu o Brasil com a sua segunda pátria, já possui a residência brasileira e está tramitando a cidadania. O artista transita pela pintura e pelo desenho. Nos últimos 5 anos vem ampliando a sua produção com a fotografia ( arte digital). As florestas brasileiras de Alejandro, mesmo ficcionais, evocam o fotográfico em suas narrativas pictóricas.

Com as suas florestas imaginárias , Alejandro busca o reincantamento da natureza, a partir de uma experiência estética, onde a beleza vem para a obra, com o intuito de recriar significados em nossa existência. Suas paisagens revelam a soma de todos os lugares já que elas não representam a natureza, elas não existem.

São montagens, colagens que se realizam em seu atelier, a partir de livros da história da arte, dos jardins de Burle Marx , de outros paisagistas, de botânica, enfim , de seu banco de dados particular e da sua memória, ávida por lembranças e cenas quase esquecidas.

Lloret continua buscando aquela palmeira real que fez parte da sua infância e adolescência em Cuba mesmo estando em São Paulo. Busca aproximações com as palmeiras que encontra no Brasil, nas ruas, nos parques, nas cidades, na Amazônia, nas praias do litoral Norte, do Rio de Janeiro, de Santa Catarina, entre tantas outras visualidades que encontra em seu caminho.

Poderíamos perguntar ao artista, o que o inspira nesta construção de paisagens tão exuberantes? E como resposta, ele nos fala que a beleza não pertence a ele, que ela ressurge em seus quadros, como falta, ausência de uma paisagem única.

A ciência, a tecnologia explicam os fatos, os acontecimentos mas podemos ver o mundo com outra perspectiva, não apenas para usá-lo ou explicá-lo mas para contemplá-lo simplesmente, em sua originalidade, beleza, enigma, fruição que vão além das texturas da aparência.

Perguntas tais como: “Será que a experiência com o belo vem do mundo cotidiano? Será um rasgo do mundo? Será fruto da nossa imaginação? Para Kant, a experiência da beleza nos conecta com o mais profundo mistério do ser. Através dela, entramos na presença do sagrado.

As florestas do artista permeiam o caminho misterioso dos saberes implícitos. Suas naturezas dialogam com emoções, rastros das nossas infâncias, gestos inerentes que poderiam carregar elementos que remetem à uma origem. É como se Lloret tivesse o desejo de partir do grau zero da imagem, indo além da simples cópia insuficiente da natureza, para nos interrogar sobre o momento de sua emergência, em se tratando da preocupação com o meio ambiente e de que maneira estamos procedendo a sua manutenção.

Neste processo de humanização das paisagens urbanas e rurais, do meio ambiente físico que desolado, degradado, poluído, sobrecarregado, clama por socorro imediato, proteção e despoluição. Onde poderíamos participar enquanto expectadores, desta reflexão e atuação por meio da arte atual, para garantir que os recortes da nossa percepção comum, sejam um solo fértil em uma nova forma de repensarmos o planeta como um eco-sócio-sistema?

Os jardins fictícios de Lloret evocam uma natureza em obra. Suas paisagens são montadas, reinventadas, construídas no atelier. A época contemporânea é marcada pela mescla de territórios e a ausência de fronteiras, possibilitando um panorama bem mais amplo ao conceito da paisagem atual. Ela se estende as noções de meio ambiente, às novas tecnologias, às diferentes mídias fotográficas e audiovisuais que nos direcionam para novas percepções do mundo natural.

Pinturas, desenhos, fotografias, enfim, mídias utilizadas pelo artista compõem suas paisagens híbridas, mestiças, nas quais os expectadores se sentem imersos. A natureza é uma ideia, uma anunciação que nos aparece vestida, como nos diz Mikel Dufrenne. Ela se mostra a partir das condições espaço – temporais da nossa sensibilidade e desaguam nos aprioris culturais que fazem com que ela apareça sob a forma de coisas paisagísticas, através de elementos da própria linguagem.

Nós e o artista, vemos e somos vistos por suas paisagens. Em algum momento apreendemos algo, como se fosse, um saber silencioso, disponível em nossa reserva mnemônica, que nos permite resgatar algo de nós mesmos, de um saber virtual que chamamos de “realidade” ou “ natureza”.

As florestas brasileiras de Lloret nos impulsionam para o território das discussões referentes às políticas ambientais tão em evidência nos dias de hoje. Como expectadores da sua obra, podemos vivenciar os segredos de uma natureza pródiga dentro de si, a partir da beleza e estranhamento de suas pinturas. Elas existem ou não existem dentro de nós?

Até que ponto somos agentes de transformação, no papel de “guardiões da paisagem”, juntamente com o artista, reatualizando o nosso compromisso com a arte, o meio ambiente e as abordagens sensivelmente diferentes da natureza, do real e da imagem que nos circunda?

                                                                                                                            Carla Saudades

Mestre em História da Arte, ECA/ USP e doutoranda em Ciências da Religião PUC/SP